A importância da cultura de doação para o desenvolvimento do país

Publicado em 03/08/2017

Em 2016 foi publicada uma extensa pesquisa sobre doação no Brasil, realizada pelo Idis (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social) e Gallup, o que possibilitou uma ampla compreensão sobre o doador brasileiro e permitiu uma atuação direcionada para fortalecer a cultura de doação no país.

Com o fim de apoiar este ecossistema, o Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), em parceria com o Instituto Arapyaú, o Instituto Cyrela, o Ice (Instituto de Cidadania Empresarial), o Instituto C&A e a ponteAponte, com apoio do Movimento por uma Cultura de Doação, lançam nesta terça-feira (1º) o primeiro edital Fundo Bis, que patrocinará em até R$ 280 mil projetos de fomento à cultura de doação no Brasil.

A pesquisa mostra que dois terços da população (maiores de 18 anos e com renda familiar mensal acima de dois salários mínimos) acredita que o governo é o principal responsável pela solução dos problemas socioambientais.

Esse dado, em si, já nos dá subsídios sobre como nos percebemos observadores em relação aos desafios socioambientais brasileiros. Considerando que o país possui uma alta carga tributária e com amplo espaço de melhoria na gestão destes recursos, não à toa nos sentimos paralisados ao ter o governo como principal responsável pelas soluções socioambientais.

Se olharmos para países onde os cidadãos se percebem como parte dos problemas locais –e das soluções–, doar se torna um valor social tangível. Nos Estados Unidos, por exemplo, o volume de doações é de aproximadamente 2% do PIB (Produto Interno Bruto), enquanto no Brasil é de 0,23%.

Claro que não há apenas um motivo que justifique essa diferença, mas uma complexidade de razões ligadas à formação de ambos os Estados, aos valores culturais e religiosos e ao tempo de maturação de suas democracias. Entretanto, nos tornarmos cidadãos que se percebem como parte da solução de problemas sociais é, sem dúvida, um elemento significativo desta diferença.

Outro dado levantado pela pesquisa é que mais de metade da população brasileira fez pelo menos uma doação em dinheiro no ano de 2015, sendo 46% delas para organizações da sociedade civil. Se perguntados sobre o papel de tais organizações, quase dois terços afirmam acreditar na sua importância.

Ao olharmos para esses dados, emerge a ideia de um terceiro setor que tem como função principal a substituição do Estado, em sua hipossuficiência. Tal percepção não beneficia o Estado nem reconhece a verdadeira importância da sociedade civil organizada como campo autônomo e, no entanto, ambos a carregam.

Portanto, quando falamos em promover uma cultura vibrante de doação, estamos também em uma conversa sobre como nos vemos como indivíduos, parte essencial de um coletivo, chamado sociedade. Estamos falando de reconhecer e empoderar a doação individual como um meio de sustentar, de forma autônoma, a sociedade civil brasileira.

O montante total de doações feitas por indivíduos (excluindo, portanto, empresas e repasses de recursos públicos) foi estimado pela pesquisa em R$ 13,7 bilhões no ano de 2015. A doação média individual gira em torno de R$ 25 por mês.

Esse dado é importante porque, quando pensamos em doação, ou na palavra filantropia, é comum pensarmos em grandes volumes doados por pessoas de alto poder aquisitivo, mas a verdade é que a doação está dentro da possibilidade de cada um de nós.

A significância de cada um de nós no campo da doação para o fortalecimento da sociedade civil brasileira é enorme. A lógica econômica se faz presente aqui. Uma organização social tem maior capacidade de endereçar sua causa-propósito se estiver alicerçada em recursos que a permitam operar de forma autônoma. Ou seja, muitos ovos em uma mesma cesta.

A sensação de que nosso dinheiro é pouco, ou irrelevante frente à magnitude dos problemas, é por demasiado equivocada. Ele é, neste momento do desenvolvimento da nação brasileira, essencial.

Para investigar este e outros assuntos ligados ao doar, bem como apoiar a conversa sobre doação com os brasileiros e fortalecer o campo da filantropia no Brasil, um campo vem se formando nos últimos anos. O Fundo Bis nasce como uma fonte financiadora para o fortalecimento deste ecossistema, no Brasil.

JOANA MORTARI, advogada e profissional de desenvolvimento, é fundadora da Associação Acorde, articuladora do Movimento por uma Cultura de Doação e membro do Conselho Curador do Fundo Bis

Fonte: Folha de São Paulo